Pressao
Complicado dizer onde termina para cada um. Eu, no caso, estou finalizando uma historia que pode ir bastante longe, trabalhisticamente falando. Sob pressao, sem tempo, cabeça ou saco para qualquer outra coisa senao esse grande projeto de formatura.
Ai eu vi sobre a morte de Tim, no twitter, pelos @lostart. O @fredcintra me mandou esse link e resolvi finalmente escrever algo no site. Algo que realmente tem me atrapalhado esse ano, me feito brigar e, mais uma vez, desobedecer as regras do jogo, tambem magoar quem me ama e colocado alguns pontos e virgulas em diversas relacoes que vao muito alem de uma amizade bacana, onde se pergunta e responde, com a intencao de ajudar – este ultimo, acredito ter sido uma boa coisa, pelo menos por agora -, a pressao.
Triste morrer trabalhando, sem possibilidade de pensar duas vezes. é assim mesmo quando as pessoas gostam do que fazem. Vao embora, ficam ate mais tarde, se envolvem, mergulham de cabeca, nao veem mais nada em volta. Os chegados dizem: “relaxa, let it go, deixa pra la, respira”. Quando? O negocio é se jogar. Nao sou ninguem pra julgar, mas minha experiencia diz que se é pra ser assim, ao menos trabalhe para voce. No seu negocio, no seu projeto, no que voce gosta, o que te faz feliz, isso, geralmente, nao esta relacionado a empresa que te garante VR, VT etc.
E isso, este ano esta valendo a pena por eu ter tempo de me pressionar, por acreditar no meu projeto e, especialmente, ter uma voz que consiga reverberar no meu trabalho VT, VR etc. é sempre bacana poder encaixar temáticas que interessam em qualquer trabalho que te envolvam.
O Tim se levou pela emocao, pelo tesao do proprio trampo, pelo que mais gostava. Nao viu alem, nao tinha ninguem de fora pra opinar tambem. Se formos pensar pelos que ficam, é realmente triste. Se a morte valeu a pena, somente o ultimo 1/24 de segundo de Tim pode dizer.
*****************************************************************************************
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,escapei-quatro-vezes-da-morte,710079,0.htm
‘Escapei quatro vezes da morte’
Fotógrafo alemão fala da situação de extremo risco em Misurata
24 de abril de 2011 | 0h 34
Marcel Mettelsiefen, Der Spiegel – O Estado de S.Paulo
Misurata é uma cidade onde mesmo fotógrafos com muita experiência em zonas de guerra estão tendo dificuldade para fazer seu trabalho. E, em nenhum lugar o perigo é maior que na Rua Trípoli, no centro. Não faz muito tempo, as pessoas faziam suas compras diárias ali. Hoje, é uma zona de morte. Foi na Rua Trípoli, na quarta-feira, que dois de meus colegas perderam a vida e dois outros foram feridos. Era apenas uma questão de tempo, eu creio, para ocorrer algo assim.
O fotógrafo espanhol Guillermo Cervera, que estava na cena, me contou como Tim Hetherington morreu em seus braços. Ele falou da gravidade dos ferimentos na cabeça de Chris Hondros. Guillermo disse que os dois não foram mortos por granadas propelidas por foguetes, mas por uma granada de fragmentação. Michael Christopher Brown, americano, foi ferido no ombro e no tórax. Ele já havia sido baleado na perna em Benghazi.
As condições para fotógrafos no centro de Misurata são quase indescritíveis. A cada cinco minutos explode uma granada de fragmentação. Disparos partem de todas as direções. Atiradores de tocaia leais ao ditador líbio Muamar Kadafi estão escondidos nas casas de um lado da rua. Combatentes rebeldes estão nas casas do outro lado. Eu estive na Rua Trípoli numa única ocasião, por 30 minutos. Outros colegas passaram muito mais tempo ali, apesar do risco extremo de serem atingidos. Como ocorreu com Tim Hetherington e Chris Hondros.
Cruzando as linhas da prudência
Muitos fotógrafos, eu inclusive, assumem esses riscos no esforço para captar a imagem perfeita. Nós muitas vezes cruzamos as linhas da prudência.
A pergunta sobre o que leva alguém a assumir semelhantes riscos é de difícil resposta. Será que o resultado final, um punhado de fotos impactantes, vale isso? Como jornalista, a pessoa quer fazer a diferença. Percebi que esse era particularmente o caso em Misurata. Havia poucos de nós ali, talvez dez fotógrafos no total. Eu me convenci de que sou capaz de mostrar a pessoas fora da Líbia o que está realmente havendo por lá. De que posso mostrar aquilo que Kadafi gostaria que permanecesse oculto: a dor e o sofrimento de civis líbios. É isso que me dá a sensação de que meu trabalho realmente pode causar um efeito. Mas pode mesmo?
Em campos de batalha como Misurata, nós fotógrafos somos dependentes da ajuda dos rebeldes, que nos guiam pela cidade. Sem essa ajuda, nossa liberdade de movimento é extremamente limitada. Mas os rebeldes também nos levam às áreas mais perigosas porque querem nos mostrar os lugares onde as pessoas estão sofrendo mais. Em alguns casos, íamos longe demais para o meu gosto, e eu dizia a meus companheiros para pararmos. Como eu era, na época, o único fotógrafo na cidade, era mais fácil.
Viajar em grupo pode ser vantajoso, mas também pode ser uma séria desvantagem. Num grupo de fotógrafos, sempre há alguém que quer ir mais longe, transpor os limites. E os outros seguem. Ninguém quer ficar para trás ou mostrar medo. É uma dinâmica que pode ampliar os limites. E em Misurata, não há linhas divisórias claras no front. A morte pode vir de qualquer lado, e pode visar a qualquer um.
Nos oito dias que trabalhei em Misurata, houve quatro situações em que eu poderia perfeitamente ter sido a vítima. Houve quatro vezes em que poderia ter morrido. Duas situações foram particularmente chocantes.
Depois que as tropas de Kadafi bombardearam o centro de imprensa, nós encontramos abrigo num hospital. Nos sentíamos seguros naquele local. As pessoas ali imitavam o ruído de granadas chegando. Piiiuuuuuuuxxxx! Era em geral engraçado e as pessoas riam. Isso ocorreu várias vezes. E aí ouvimos a coisa real. Estávamos no pátio de um complexo de apartamentos na zona de batalha. Havia crianças brincando e nós entramos no edifício para guardar alguns equipamentos. Ouvimos um assobio e depois três ruídos fortes: bum, bum, drsxxxxxxx. As crianças com quem estivéramos brincando apenas dois minutos antes estavam todas mortas. Uma granada de fragmentação. Esses explosivos detonam no ar e espalham estilhaços ? fragmentos de metal pontudos, aquecidos, que atravessam facilmente o corpo humano. Por puro acaso eu não estava mais no pátio quando a granada explodiu.
De outra vez estávamos seguindo para o porto quando uma granada de fragmentação detonou a dez metros de nós. Errou por pouco a ambulância a nossa frente. As tropas de Kadafi se afeiçoaram a mirar ambulâncias.
Não existe segurança completa para fotógrafos, isso deve ficar claro. Mas é preciso estabelecer limites. Em Misurata eu me aventurava um pouco mais a cada dia, até que fiquei a apenas dez metros de uma casa com 30 atiradores pró-Kadafi. Os rebeldes foram inflexíveis sobre me levar para um edifício próximo para que eu tivesse uma visão melhor. Aí nós saímos correndo. É preciso correr para todos os lados para se esquivar dos atiradores. De repente, estávamos levando tiros dos dois lados. Foi então que eu pensei: agora eu fui longe demais.
Você se pergunta por que faz isso, por que está nessa situação apesar de já ter estabelecido alguns limites. Você se pergunta se, em último recurso, teria a coragem de respeitar esses limites e recuar se as coisas ficassem perigosas demais. Quando se começa a ficar nervoso, é hora de voltar.
Fiquei feliz quando saí de Misurata. Nesse tipo de missão, a gente suporta uma quantidade enorme de stress. Mas só percebe isso de fato quando não está mais na situação e toda a tensão arrefeceu.
É como no Haiti em 2004, quando alguns colegas e eu caímos numa emboscada. Estávamos em oito, mas somente quatro saíram com vida. Eu vi um colega ser baleado e morto bem diante de meus olhos. Foi uma experiência traumática, e ela realmente me convenceu de que eu não ia fazer nada disso de novo. Comecei a estudar medicina.
Mas, de alguma maneira, terminei do jeito que comecei: como um fotógrafo em zonas de crise. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK









